quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Fuga das Musas


Examino o retrato... Quem parece?
Não sei bem... Um roberto, certamente...
Um roberto, vestido como gente,
A fingir de escritor... E que parece

Ter saudades de Musa muito ausente...
Reparo no sorriso que esmorece...
Naquele ar indeciso transparece
Um pesar de quem tem vazia a mente...

Não sabe se há de rir se há de chorar...
Sorri, para impedir, sem dar por isso,
Que seu pranto o papel vá encharcar;

E no papel molhado, outro enguiço
Esborrate o sentir que lhe rolar
Dum recanto da mente, por feitiço...

Porto, 26 – 3 – 2002

Partiu para o além...


PARTIU PARA O ALÉM…

Há muito que partiu para o Além…
Aquele que me deu felicidade,
Num mundo aonde falha a lealdade
E aonde o amor falha também.

A Morte, desuniu-nos, sem piedade,
Parece que por mim tinha desdém,
Pois levou-mo, sem dó, como refém…
Deixando-me a sofrer com a saudade.

Busco algo, na Fé, que me conforte:
E a Fé, que tenho em Deus, logo me diz:
Se eram, as virtudes, o seu forte,

Só pode ter o Céu por directriz;
E Deus, para o buscar, mandou a Morte,
Por quere-lo num Mundo mais feliz.

Porto, 2 – 9 – 1992

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A uma amiga

Boa amiga Clarisse, finalmente,
Lhe venho dar notícias e dizer
Que, ler os seus escritos é um prazer.
Estranha o meu silêncio, certamente...

Não leve a mal, se tardo em responder:
Eu, só uso a internet, raramente.
É estranho, mas sou mesmo renitente
Em fazer um esforço... a aprender...

Já passou o Natal. E, só agora,.
Lhe manifesto os votos (e são tantos!...)
Para Deus a alegrar em cada hora,

E tenha um Novo Ano só de encantos.
Porque o dois mil e nove não demora,
Que transborde em virtudes só de santos

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Natal

Tem mistério, tem magia
Esta palavra Natal:
Poder espiritual
Do Amor e da Alegria.

Os sentimentos reais
Que esta palavra condensa,
Alivia indiferença
Entre os indignos mortais...

Sentem se então irmanados
E de corações unidos;
Quando, dos ódios despidos,
São por Deus abençoados.

O Natal do Deus Menino
Já se deu há dois mil anos!
Resiste sempre aos profanos
O sentimento Divino.

Somente um Deus Redentor,
Vindo à Terra, humanado,
Podia ter transformado
Paixões e ódio em Amor.

2001

Jesus

Vem, Jesus, vem comigo,
Que peregrino na Terra
Sem encontrar um amigo
Onde existem ódio e guerra.
Sendo o homem traiçoeiro,
Dele só nos vem a dor.
Sede Vós meu companheiro
Neste deserto de Amor...

Eu e a internet

I

Quem me fala, calado e escondido,
Dentro da Internet duvidosa?...
É alguém que me deixa receosa:
Não tem voz, nem há rosto definido…

Pode ser amizade preciosa,
A tornar este jogo divertido;
Mas pode ser, também, um foragido,
Buscando alguma cúmplice, engenhosa,

Que através da Internet lhe dê fuga…
Com anonimato é que eu desatino:
A minha mente hesita e se enruga,

Por não poder saber qual o destino
De pensamentos, que um ecrã me suga:
Se os dá a amigos meus, ou a cretino…

Um ninho de andorinha

Certo dia uma andorinha,
Constrói a sua cazinha,
Num lugar a seu contento:
É num moinho de vento,
Parado à noite e de dia,
Porque há muito não moía.
Não foi dentro do moinho
Que fizera o seu ninho.
Fê-lo, de certa maneira,
Numa das pás de madeira
Que formam a ventoinha.
Já rachada, já velhinha,
Apodrecendo, travada,
Porque já não era usada.
Ela fez os seus projectos,
Fez cálculos muito certos.
Juntou os materiais:
Muita lama e coisas mais.
Em farpas bem colocadas
Naquelas tábuas rachadas,
Arquitectou o seu ninho
Com formato redondinho,
E tinha só um postigo
Esse bem cuidado abrigo.
Um ninho muito engraçado,
Nem lhe faltava o telhado.
Ajudou-a o seu parceiro.
Um casal verdadeiro.

Começou a pôr ovinhos
E nasceram os filhinhos.

II
Dois meninos vão da escola,
Com os livros e uma bola,
Naquele sítio a passar:
Ouviram piar, piar...
Parecia chamamento
A pedir mais alimento.
Descobrindo os passaritos
Começaram logo aos gritos:
--- Olha um ninho! Olha este ninho!
Qual será o passarinho?



--- Andorinha; é o mais certo...
Mas vamos ver lá de perto.
É só destravar as velas,
Logo o ninho desce nelas.
Destravadas, num momento,
Ficam à mercê do vento
Que logo as põe a rodar,
Trazendo o ninho a baixar.
Lá no ninho, os passarinhos,
Ficam tão assustadinhos
Que piavam sempre mais
A chamarem pelos pais.
Estes cuidavam da vida,
Indo buscar-lhes comida.
Um espreitou à janela.
De repente caiu dela,
E, no chão, entre o relvado,
Chorava muito assustado:
--- Piu, piu, piu...Eu vou morrer...---
Os meninos, a correr,
Logo o tomaram nas mãos,
Para o levar aos irmãos.
Com afagos e carinho
Lá o puseram no ninho.
Era um sentir verdadeiro;
Assim, do seu merendeiro,
Tiram migalhas docinhas
Para dar às andorinhas.
Com tanto zelo por elas
Travaram melhor as velas.

Esposende, 1999

O Rouxinol

Trovador de canções belas,
Quem me dera assim cantar
O segredo das estrelas,
O mistério do luar.

Há na alma portuguesa
Cantigas em turbilhão,
Quando canta também reza;
Está sempre em oração.

Canta as serras e os vinhais,
Os pomares cheios de cor;
Canta o mar e os trigais
E as campinas sempre em flor.

Canta o firmamento azul
E encantos do nevoeiro
Como farrapos de tule
Perdidos pelo outeiro.

Meu rouxinol cantador,
Escondido entre os silvado,
Os teus trinados de amor
Dão ternura ao povoado.

Canta, canta, ó rouxinol,
Tuas doces melodias
À tardinha ao pôr do sol,
Ao toque de Avé - Marias.

Ó trovador sem rival,
Cantasse eu na tua vez...
Fazer trovas é sinal
De ser mesmo português.

Mas portuguesa sou eu
Porque tento versejar,
A inspiração vem do céu,
Vem das flores e vem do mar.

ponte difícil de atravessar

Dois jovens atravessam uma ponte
Sobre um rio sereno e bem estreito.
Mas,que medo se vê naquele jeito
Dos corpos, e também em cada fronte.

Ai, que aflição lhes vai dentro do peito!
Na tábua frágil entre cada monte,
Lá vão… em busca doutro horizonte,
Numa aventura digna de respeito.

Atravessar a ponte desta vida,
Mais frágil e imensa, é mais custoso…
Sobre ela tanta gente estarrecida,

Como sobre o oceano tenebroso,
Se não for pelo amor persuadida,
Que só o esforço faz... o venturoso.

Eu

I

Não me atrai o abstracto… irrealidade...
Por isso nada há de modernismo
No que pinto, a expressar o realismo,
Num esforço de achar o que é verdade,

Neste mundo a cair para o abismo,
Empurrado por tanta ambiguidade!...
Tanta incerteza traz fatalidade.
Parece-me existir mais altruísmo

Em clarificar bem o duvidoso:
Mostrar que existe ainda um verde prado;
Mostrar um rio exangue… ou caudaloso;

Algum recanto ainda inundado
De Paz, sem o ruído pavoroso
Que nos deixa o espírito arruinado…


II

Até no que parece uma abstracção,
Pelo jogo das cores sobre a tela,
Sem esforço, sem lei e sem cautela,
Não passa sem haver figuração

De algo real…Paisagem feia ou bela.
Sou assim… Abro a alma e o coração.
E sinto quanto vale a precisão,
Até no que em pintura se revela.

No colégio, já isto me valeu:
“Concurso, na Gulbenkian, de pintura
Para jovens”: mandei um quadro meu.

Com paisagem real e a figura
De jovem camponesa, e mereceu
Lá ficar! Para mim foi a ventura.


III

Os duzentos escudos que ganhei,
Nesse tempo (há bem setenta anos…),
Puseram-me a pensar: “Não houve enganos?...
Valia tanto o quadro que pintei?”

Cheia dos sentimentos mais ufanos,
Com paixão, a pintura eu abracei.
Mas, só com ela, não me contentei:
Nos livros via amigos mais humanos…

Saudosa do colégio, lá na aldeia,
Vendo-me aí em grande solidão,
A pintar eu sentia a alma cheia;

E, se um livro me dava animação,
A escrever, fosse qual fosse a odisseia,
Libertava-se mais o coração.

IV

Assim, eu tinha sempre o tempo cheio.
E deixava que a mente divagasse…
Que fosse em aventuras e voltasse
Com fantasias, sempre num enleio,

Cada uma trazendo o seu disfarce…
Ia então escrevê-las, com receio
De não achar princípio, fim ou meio…
Mas encontrava sempre o desenlace.

Também me deram prémio tais histórias
E poemas: são quatro penas de ouro
Que guardo, de concursos. São vitórias.

Tinha dentro do lar o meu pelouro,
Nas lidas que parecem mais inglórias!...
Mas ia a mente em busca dum tesouro…